Quinta do Careca

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João Pereira e o seu outro eu

23 Novembro, 2016 406 visualizações

Tal como não se pode fugir ao destino, também da fama de ter maus fígados não nos livramos. Estou a pensar em João Pereira, esse desistente de carreira que o olho de falcão, perdão, o olho de lince de Jorge Jesus em hora feliz foi buscar à prateleira dos infernos.

Duelo. O jogador começou por corresponder à confiança do técnico, teve a seguir um período em que perdeu o duelo com Schelotto, mas voltou ao de cima, reconquistando o lugar no onze.

Renegado. Ontem, Pereira estava a jogar bem até renegar tudo aquilo de que nos convencera: que regressara ao futebol agressivo e intenso que o levara à Seleção de Paulo Bento, perdendo, ao mesmo tempo, a mania dos palavrões e de se meter em embrulhadas.

Quadro. Numa das redes sociais, substitutas por excelência das antigas portas das retretes públicas, alguém mais perverso – e perversidade é o que por lá não falta – escreveu que João Pereira quer seguir a carreira de João Vieira Pinto. E que se este conseguiu, também ele quis iniciar a sua caminhada para futuro quadro da Federação.

Protetor. Não acredito nisso. Primeiro porque Pereira não teve tempo para pensar, foi traído pelo ADN, quis ser fiel ao seu outro eu, justificar a fama de quezilento histórico. E encostou-se ao Kovacic que, coitadinho, se rebolou no chão com umas dores pavorosas. João Pereira é injustamente expulso, mas já sabia que o passado não lhe permite entrar em confusões. Não devia ter ido à guerra e foi, pregando com isso Jesus Protetor na cruz e lesando o Sporting, que estava em cima de um Real Madrid que tornou a não ser superior aos leões.

Apoplexia. Manda igualmente a verdade que se diga que Jesus não tem, ainda, uma equipa madura. Basta recordar dois lances de Gelson Martins, no princípio do segundo tempo. Num, ficou à solta pela direita, aproveitando a queda de Marcelo, e fez um centro rasteiro, à toa, para o meio dos defesas, o que deixou o treinador à beira da apoplexia. Minutos depois, isolado na grande área, centrou atrasado para “ninguém”, quando se impunha o remate cruzado. Adiou a sua afirmação, revelando que tem muito para aprender e crescer.

Cérebros. Apesar de tudo, a coisa compôs-se com a ridícula mão, ou braço, de Coentrão, esse émulo cerebral de João Pereira. Mas como em Madrid, o Sporting não teve sorte. E tanto azar, já chateia.

Contracrónica, Record, 23NOV16