Travagem a fundo no consumo antecipa recessão

13/05/2011
Colocado por: massamonetaria

A economia portuguesa está oficialmente em recessão técnica revelou hoje o INE. No primeiro trimestre do ano a economia contraiu 0,7% face ao trimestre anterior, mais do que o esperado. Trata-se da segunda contracção trimestral consecutiva, após três trimestres de expansão, colocando assim Portugal em recessão técnica. José Miguel Moreira, do Montepio, salienta forte travagem no consumo privado. Bárbara Marques, do Millennium BCP, concorda e escreve que Portugal foi o único país europeu a registar uma contracção do PIB face ao trimestre anterior. O NECEP vinca que o mau resultado do trimestre confere ainda mais importância ao resultado das eleições de 5 de Junho.

Nota do editor: No “Reacção dos Economistas” pode ler, sem edição do Negócios, a análise aos principais indicadores económicos pelos gabinetes de estudos do Montepio, Millennium BCP, BPI e NECEP (Universidade Católica), isto sem prejuízo de outras contribuições menos regulares. Esta é parte da “matéria-prima” com que o Negócios trabalha e que agora fica também ao seu dispor.

 

Núcleo Estudos de Conjuntura sobre Economia Portuguesa (NECEP) da Universidade Católica 

 

1. No 1º trimestre de 2011, a economia portuguesa registou uma quebra de 0,7% face ao trimestre anterior (-0,6% no 4º trimestre de 2010) e uma contracção homóloga também de 0,7% (+1,0% no último trimestre de 2010). Estes valores são piores que a previsão de crescimento que o NECEP fez a 18 de Abril  e que foram divulgados em primeira mão pelo Jornal de Negócios, embora confirmem o cenário de contracção na altura antecipado.

 

2. Os dados do 1º trimestre têm um significado negativo. Há 3 aspectos a destacar nestes valores preliminares do INE. Em primeiro lugar, a forte quebra do PIB face ao trimestre anterior terá sido motivada, em larga medida, pelo mau desempenho do consumo privado. Em segundo lugar, tudo indica que a trajectória negativa do PIB no 1º trimestre do ano foi agravada em Março, devido à deterioração das condições orçamentais e de financiamento da economia. Finalmente, a revisão das contas públicas efectuada em Março e Abril veio revelar uma situação económica no final de 2010 pior do que a inicialmente estimada pelo INE.

 

3. Na opinião do NECEP o comportamento da economia portuguesa no futuro próximo vai depender, essencialmente, da evolução das condições de financiamento e das medidas de ajustamento orçamental que vierem a ser tomadas. Neste contexto, o cenário político que resultar das eleições de 5 de Junho e as decisões do próximo Governo e do Parlamento poderão ser especialmente relevantes para perspectivar o desempenho próximo da economia nacional.

 
Bárbara Marques – Departamento de Estudos do Millennium BCP


1. A estimativa preliminar do PIB para o 1º trimestre de 2011 revela uma diminuição de 0,7% face ao período homólogo
(-0,7% face ao trimestre anterior), valor que fica substancialmente abaixo da nossa previsão inicial.

2. Na origem desta quebra terá estado, sem surpresas, a diminuição da Procura Interna. O Consumo Público terá registado uma travagem brusca, quer pelo facto de ter sido contabilizada a importação de equipamento militar no trimestre anterior, não observável agora, quer pela evolução da execução orçamental neste primeiro trimestre, que apresentou uma evolução mais favorável face a 2010, com alguma contenção da despesa. O Consumo Privado e a componente de Investimento terão também verificado uma forte diminuição, devido às alterações fiscais e conjunturais neste início de ano. Do lado da Procura Externa, o contributo das exportações ter-se-á mantido positivo. A magnitude destes efeitos é ainda desconhecida, dificultando a realização de uma análise mais detalhada.

3. O valor hoje apresentado antecipa para o 1º trimestre uma contracção da economia portuguesa que apenas prevíamos a partir do 2º trimestre, deteriorando assim a nossa projecção para o crescimento real médio anual do PIB em 2011 que poderá situar-se abaixo dos -1,5%. As projecções da Primavera da Comissão Europeia apontam para uma contracção do PIB de 2,2% em 2011 e de 1,8% em 2012, fruto do rigoroso programa de consolidação orçamental.

4. De referir ainda que Portugal foi o único país europeu a registar uma contracção da actividade económica (variação em cadeia) neste primeiro trimestre.

José Miguel Moreira – Departamento de Estudos do Montepio

1. Economia portuguesa registou uma queda trimestral de 0.7%, no 1ºT2011, depois de ter contraído 0.6%, no 4ºT2010 – valor revisto em baixa, em 0.1 p.p., face ao que havia sido anteriormente reportado pelo INE, aquando da recente da Notificação no âmbito do Procedimento dos Défices Excessivos (PDE).

2. Trata-se, assim, da 2ª contracção consecutiva do PIB, após 3 trimestres de expansão, revelando um cenário mais desfavorável do que as Previsões de Consenso da Bloomberg (-0.3%), e do que as nossas próprias previsões, e com o PIB a dever ter-se visto, essencialmente, penalizado pelo Consumo Privado, com o principal contributo relevante para o crescimento da actividade a dever ter vindo das Exportações Líquidas

3. Em termos homólogos, a Estimativa Rápida do INE apontou para um decréscimo de 0.7% do PIB, regressando a terreno negativo após ter passado todo o ano de 2010 a evidenciar crescimentos homólogos (+1.0%, no 4ºT2010, em linha com o valor avançado pelo INE no âmbito do referido PDE). No conjunto do ano de 2010, o PIB terá aumentado 1.3%. Segundo o INE, a desaceleração do crescimento homólogo traduziu um acentuado contributo negativo da Procura Interna, em resultado da diminuição das Despesas de Consumo Final (das Famílias e das Administrações Públicas) e, em menor grau, do Investimento. O contributo das Exportações de Bens e Serviços para a variação homóloga do PIB manteve-se elevado no 1º trimestre, sendo ainda de destacar que se observaram elevados crescimentos dos preços.

4. Em termos trimestrais (sobre o que o INE não se pronunciou, nesta 1ª estimativa), e na Óptica da Despesa, o principal contributo para a queda da actividade terá vindo do Consumo Privado, com o nosso Indicador Compósito para o Consumo Privado a continuar a apontar para uma queda na ordem de 1.0% e que terá reflectido, essencialmente, as medidas de austeridade adoptadas no início do ano, que provocaram uma redução do Rendimento Disponível real das famílias, bem como a correcção da antecipação do Consumo de Bens Duradouros (essencialmente, Automóveis), no 4ºT2010.

5. Já as Exportações Líquidas (de Bens e Serviços) terão evidenciado o maior contributo positivo para o crescimento trimestral do PIB português, prevendo-se um robusto crescimento das Exportações, com as Importações a deverem ter evidenciado, igualmente, um crescimento, mas bastante menos intenso – reflectindo, designadamente, a referida correcção face à antecipação da aquisição de Automóveis ocorrida no final de 2010. Ao nível do Investimento, admite-se que o Investimento em Capital Fixo (FBCF) tenha conseguido crescer – impulsionado, somente, pelas componentes de Máquinas e Equipamentos e pelo Material de Transporte, já que a componente de Construção deverá ter registado uma queda –, enquanto a Variação de Existências (variável para a qual temos poucos dados mensais para extrapolar o comportamento trimestral) deverá ter contribuído negativamente, corrigindo do inesperado contributo positivo observado no 4ºT2010. Por fim, o Consumo Público deverá caído de forma notória, corrigindo da igualmente forte subida observada no trimestre anterior, que havia colocado o agregado praticamente em máximos históricos, reflectindo, sobretudo, a importação de equipamento militar (submarinos).

6. Na Óptica da Produção, entre os três principais sectores de actividade, deverá ter-se observado quedas tanto no Valor Acrescentado Bruto (VAB) dos Serviços, como da Construção – não obstante os dados mensais do Índice de Produção na Construção apontarem para uma relativa estagnação da actividade (uma descolagem que, de resto, é relativamente frequente, designadamente no 4ºT2010, onde a Produção contraiu 6.7% e o VAB desceu 5.6%). Já a Indústria terá conseguido evitar uma contracção da actividade, a avaliar pelos dados da Produção Industrial conhecidos e impulsionada pela melhor dinâmica externa da economia, um resultado que, a confirmar-se, será notável, num trimestre que, como referido, terá sido especialmente marcado pelas medidas de austeridade implementadas pelo Governo, e que, já no trimestre precedente, haviam condicionado fortemente as expectativas dos agentes económicos e, nesse sentido, o Investimento empresarial.