Exportações evitam queda mais acentuada (e temida) do PIB

14/11/2011
Colocado por: Rui Peres Jorge

A recessão acelerou no terceiro trimestre. As equipas do Núcleo de Estudos de Conjuntura da Economia Portuguesa (NECEP) da Faculdade de Economia da Universidade Católica e dos departamentos de estudos do Montepio e BPI apontam para uma recessão de 1,6% em 2011, melhor que as previsões do Governo e da Comissão Europeia. O Millennium bcp alinha pela mesmo valor.  

 

O NECEP salienta que a recessão não é está a ser tão intensa como se temeu – e se poderia julgar pelos indicadores de confiança disponíveis até agora – devido ao bom desempenho das exportações. Esta é uma análise partilhada por Rui Bernardes Serra, do Montepio, Bárbara Marques do Millennium bcp e e por Paula Carvalho do Banco BPI. Todos concordam que o último trimestre e o arranque de 2012 serão bem mais dificeis, com o BPI a avisar que uma recessão de 3% no próximo ano “será talvez o cenário mais favorável, apontando os riscos em sentido negativo”.

  

Nota do editor: No “Reacção dos Economistas” pode ler, sem edição do Negócios, a análise aos principais indicadores económicos pelos gabinetes de estudos do Montepio, Millennium BCP, BPI e NECEP (Universidade Católica), isto sem prejuízo de outras contribuições menos regulares. Esta é parte da “matéria-prima” com que o Negócios trabalha e que agora fica também ao seu dispor.  

 

Bárbara Marques – Gabinete de Estudos do Millennium bcp

 

1. A estimativa rápida do INE para a evolução do PIB no 3º trimestre revelou uma contracção da actividade económica de 1,7% face ao período homólogo, correspondente a uma diminuição de 0,4% em variação trimestral. Estes dados confirmam a esperada intensificação do processo recessivo na segunda metade do ano, mas revelam uma evolução mais favorável do que o previsto pelo nosso Indicador Coincidente (-2% de variação homóloga e -0,8% de variação trimestral). Embora não publicando os dados relativos à evolução das componentes do PIB, o INE revela que se observou uma desaceleração das exportações de bens e serviços e uma acentuada redução do consumo privado (famílias) e do investimento. Adicionalmente, foi apresentada uma revisão em baixa da evolução do PIB no 2º trimestre (de -0,9% para -1,0% em variação homóloga), devido a correcções nas estatísticas mais recentes do comércio internacional de bens.

 

2. Com o contributo da procura interna a manter-se negativo, as exportações líquidas terão sido o motor de crescimento da economia. No 3º trimestre verificou-se uma melhoria do défice comercial de bens, sugerindo a manutenção de um elevado contributo da procura externa líquida para o crescimento do PIB real no trimestre – cerca 3,5 p.p., tomando como pressupostos os deflatores do trimestre anterior e as tendências recentes para a balança de serviços.

 

3. De acordo com as variáveis que constituem o nosso Indicador Coincidente, o desempenho da actividade económica no 4º trimestre deverá agravar-se. Do lado da oferta, destacam-se os baixos índices de confiança nos diversos sectores de actividade indiciando uma contracção da actividade, que deverá ser menos intensa na indústria transformadora dado o impulso externo, embora se comece a registar um abrandamento das novas encomendas provenientes de outros países. Do lado da procura, denota-se um eventual abrandamento das exportações atendendo ao menor nível de sentimento económico europeu, para qual o contribui a perspectiva de contracção da actividade económica europeia por impacto do reforço das políticas de austeridade nos países da área do euro. No que respeita à procura interna, o processo de intensa contracção deverá prosseguir uma vez que, ao contrário do ano passado, no qual se registou um maior dinamismo da actividade no último trimestre por via da antecipação de despesa na sequência do ajustamento fiscal sobre os bens de consumo, as famílias, com menor rendimento disponível que no passado e perante um cenário de grande disciplina financeira, deverão optar por aumentar a poupança com o objectivo de sustentar consumos futuros.

 

4. Tendo em conta os valores observados desde o início do ano, a verificação dos cenários do Governo e do Banco de Portugal de uma contracção do PIB de 1,9% em 2011, implicaria uma contracção (homóloga) de 4,5% no último trimestre, o que nos parece pouco provável. A nossa estimativa aponta para um crescimento do PIB em 2011 em torno dos -1,5% e pressupõe um agravamento nas estatísticas a divulgar até final do ano.

 

 

Paula Carvalho – Departamentos de Estudos do BPI

 

1. Apesar de desfavorável (dado que se registou retracção do crescimento), o andamento do Produto Interno Bruto no terceiro trimestre acabou por ser melhor que as projecções implícitas da generalidade dos cenários. Em média, nos primeiros 9 meses do ano, a actividade económica recuou cerca de 1%, em termos reais, face ao período homólogo. Pelo que a variação anual de 2011 deverá aproximar-se mais de uma queda em torno de 1.5% (o BPI estima 1.6%) do que 2% como antecipam o FMI, CE e Governo (a Comissão Europeia prevê -1.9% nas previsões de Outono).

 

2. Estas são boas notícias. Sobretudo porque subjacente está o bom comportamento das exportações que, segundo o INE, desaceleraram mas continuam a crescer a bom ritmo: até Setembro, 16% em termos nominais; o saldo da balança de bens encolheu 15%.

 

3. Os números dos próximos relatórios deverão ser bastante mais penalizadores atendendo às restrições que vão começar a ser mais evidentes sobre o rendimento e o financiamento de famílias e empresas; assim, o consumo privado vai cair a um ritmo mais acentuado, sobretudo no 4T11 e 1T12 (representa cerca de 68% do PIB); o Investimento continuará condicionado pelas perspectivas quanto à procura e cada vez mais, pelas restrições ao financiamento; a crise no sector do imobiliário e construção, e o impacto do recuo nas obras públicas fazem prever também que esta componente do PIB continue em queda livre; os gastos públicos estarão condicionados pela necessidade imperativa de consolidação fiscal; finalmente, há o risco das exportações desacelerarem, dado o cenário de abrandamento externo, apesar de em termos líquidos, a queda das importações dever compensar parcialmente este efeito. Em suma, o cenário para 2012 não é positivo. Uma queda de 3% do PIB será talvez o cenário mais favorável, apontando os riscos em sentido negativo.

 

 

Rui Bernardes Serra – Departamento de Estudos do Montepio

 

1. O PIB português caiu 0.4% no terceiro trimestre, refletindo a contração de todas as componentes da procura interna, mais intensa ao nível do investimento em capital fixo, apenas parcialmente compensada pelo contributo positivo da procura externa. Este resultado saiu exatamente de acordo com as nossas estimativas, pelo que mantemos as previsões de uma queda do PIB de 1.6%, em 2011.

 

2. A estimativa preliminar do INE para o Produto Interno Bruto (PIB) português do 3ºT2011 saiu exatamente em linha com as nossas perspetivas, ao apontar para uma queda de 0.4%, tendo igualmente vindo rever marginalmente em baixa o crescimento do trimestre anterior, de uma estagnação para uma descida de 0.1%, algo que também tínhamos admitido na construção do nosso cenário anual para a economia portuguesa. Em termos homólogos o PIB caiu 1.7%, após ter descido 1.0% no 2ºT2011 (valor revisto em baixa, em 0.1 p.p.), com esta aceleração do ritmo de contração a resultar, segundo o INE, sobretudo da desaceleração das exportações de bens e serviços, que, ainda assim, mantiveram um crescimento elevado, e da redução mais expressiva do investimento. O consumo privado manteve uma acentuada diminuição.

 

3. Já em cadeia, apontamos para que se tenha observado uma contração de 0.3% do consumo privado, o investimento em capital fixo terá caído mais de 3% e os gastos públicos terão corrigido da subida do trimestre precedente. As exportações líquidas de bens e serviços deverão ter registado um contributo bastante positivo para o crescimento do PIB (entre +0.7 a +1.0 p.p.), de acordo com as indicações dadas atualmente pelos nossos indicadores compósitos.

 

4. A queda trimestral do PIB português correspondeu a pouco mais de metade da descida prevista pelo consenso da Bloomberg (-0.7%), entre os quais o Montepio se apresentou não só como uma das mais otimistas, como também como a única certeira. Refira-se que a própria Comissão Europeia (CE) tinha previsto uma contração de 1.4% no trimestre. Neste contexto, reiteramos aqui as nossas previsões para a economia portuguesa para este ano: uma queda de 1.6%, contrastando com a queda anual de 1.9% projetada pela CE. Estas nossas previsões incorporam uma forte queda de 2% no atual trimestre, decorrente de um conjunto significativo de fatores que afetam a economia portuguesa: i) o aumento do IVA na energia; ii) a sobretaxa que será aplicada ao subsídio de Natal; iii) as expectativas dos agentes face às fortes medidas de austeridade para 2012 inscritas na proposta de OE 2012; iv) o abrandamento ou mesmo contração da atividade em alguns dos nossos parceiros comerciais. Neste contexto de elevada incerteza, não se poderá, obviamente, excluir ainda uma contração superior.

 

 

Núcleo de Estudos de Conjuntura da Economia Portuguesa ( NECEP) da Faculdade de Economia da Universidade Católica

 

1. No 3º trimestre de 2011, o PIB nacional caiu pelo quarto trimestre consecutivo, evoluindo abaixo da sua taxa de crescimento tendencial recente (próxima de zero). A economia portuguesa registou uma quebra de 0,4% face ao trimestre anterior (-0,1% no 2º trimestre de 2011) e uma contracção homóloga de 1,7% (-1,0% no 2º trimestre).

 

2. Apesar de tudo, estes valores são consistentes com uma trajectória do PIB em 2011 menos desfavorável do que a prevista pelo Governo, Banco de Portugal, Comissão Europeia e outras instituições internacionais (de facto, tudo indica que a quebra do PIB em 2011 ficará mais perto de 1,5% do que de 2%: a última projecção do NECEP, feita em Outubro, aponta para -1,6%).

 

3. Sobre os dados do 3º trimestre, o NECEP destaca dois aspectos, que acabam por estar relacionados. Em primeiro lugar, o bom comportamento das exportações ao longo de todo o trimestre, indiciando uma conjuntura externa ainda não tão adversa como a sugerida por alguns indicadores. Em segundo lugar, a relativa disparidade entre a evolução dos indicadores quantitativos e qualitativos (de confiança). De facto, estes últimos apontavam para uma contracção da economia portuguesa muito superior à verificada, certamente influenciados pela turbulência no sistema financeiro e pelas dificuldades de natureza orçamental. No curto ou médio prazo, estes indicadores tenderão a convergir e tudo indica que seja a economia real a acompanhar em baixa o comportamento negativo recente dos índices de confiança. Contudo, esta é uma hipótese ainda por confirmar.

Rui Peres Jorge