Bastardos? Mula da cooperativa? Não se esqueçam: L’État c’est moi!

12/01/2015
Colocado por: Bruno Simões

Depois de quase 37 anos à frente dos destinos da Madeira, os madeirenses preparam-se para dizer adeus a Alberto João Jardim. É o fim de um ciclo iniciado em 1978. Depois da vitória do opositor Miguel Albuquerque nas eleições pelo partido, Jardim apresenta segunda-feira a demissão de presidente do Governo, precipitando assim eleições antecipadas. Uma bom pretexto para lembrar algumas das frases mais marcantes do ex-líder do PSD Madeira.

 

Alberto João jardim deixa hoje, ao fim de quase 37 anos, a liderança dos destinos da Madeira.

Alberto João jardim deixa hoje, ao fim de quase 37 anos, a liderança dos destinos da Madeira.

 

Foram quase quatro décadas de constantes picardias com o Continente, de intervenções imprevisíveis e de aparições memoráveis – como aquela em que foi fotografado em cuecas, quando mudava de roupa para participar no Carnaval da Madeira, em 1997, e que foi publicada pelo extinto Tal&Qual.

 

Uma das frases mais marcantes de Jardim teve como destinatários os “bastardos” jornalistas do Continente. “Há aqui uns bastardos na comunicação social do Continente… eu digo bastardos para não ter que lhes chamar filhos da puta, que aproveitaram este ensejo para desabafar o ódio que têm sobre a minha pessoa”, afirmou em Junho de 2005, a propósito de notícias sobre a acumulação da pensão com o vencimento de presidente do Governo.

 

Nessa mesma ocasião, estendeu as críticas ao deputado do PS Vitalino Canas. “O sr. dr. Vitalino Canas tem uma pessoa na sua família que está sob tutela de outra pessoa que recebe a reforma e o ordenado de cargo político. Portanto, esteja calado”.

 

O Rei Sol

 

Mais recentemente, em 2008, a propósito da investigação de processos de corrupção na ilha, teve uma declaração que muitos consideraram sintomática. Jardim começou por duvidar dos processos. “Se tudo for infundamentado, quem levantou calúnias vai responder”. Mas e se houver fundamento? “Se houver fundamento, quem tiver de comer come”. Incluindo o PSD local? “Não atinge o PSD. ‘L’État c’est moi. L’État c’est moi’”. Foi precisamente essa expressão que terá sido utilizada pelo rei francês Luís XVI, o Rei Sol.

 

Um ano depois, Manuela Ferreira Leite, a candidata do PSD às legislativas, visitou a Madeira. Ora, para se deslocar, a presidente dos social-democratas usou um carro que pertencia ao Governo Regional da Madeira. Perante a polémica que se começava a avolumar, João Jardim respondeu bem ao seu jeito. “Só os medíocres é que estão preocupados com essa história. ‘Fuck them’ [não é preciso traduzir, pois não?]”.

 

As eleições de 2009 haveriam de ser ganhas por José Sócrates. O agora detido em Évora foi o responsável pela demissão de Jardim em 2007, por causa de uma Lei das Finanças Regionais que, acusava Jardim, roubava “450 milhões de euros” à Madeira. Em 2008, Jardim dizia que Sócrates era um “ditadorzinho potencial, como se vê nesta coisa de fazer leis para fechar a imprensa que lhe é adversária”. “É nitidamente um Mugabe”, atirou em declarações ao Jornal da Madeira.

 

Antes, em 2005, Jardim não se mostrava convencido com Sócrates. “Se os portugueses o elegerem primeiro-ministro é sinal que o país perdeu o juízo”, sentenciou. E o país elegeu mesmo Sócrates. Duas vezes!

 

A maior bebedeira? Teixeira dos Santos pelas costas

 

Mas os mimos não estavam reservados a Sócrates. Teixeira dos Santos também foi o alvo das declarações de Jardim. “A minha maior bebedeira, de caixão à cova, foi a alegria de ver o Teixeira dos Santos [antigo ministro das Finanças] pelas costas”, confessou, durante as “Conversas Improváveis” com… Marinho e Pinto, em 2012.

 

As farpas foram, apesar de tudo, abrangentes. Desde Soares a Passos Coelho, todos os chefes de Governo tiveram de lidar com a personalidade mordaz, para dizer o mínimo, de Jardim. Nem o actual chefe de Governo resistiu. “Acha que depois de 30 e tal anos de política, estou para ser liderado por esse indivíduo?”, resumiu em Outubro de 2009, ao mesmo tempo que apoiava Manuela Ferreira Leite na luta pelo PSD.

 

Para o ex-secretário-geral do PS, António José Seguro, Jardim foi muito mais cáustico. “Esse senhor chegou a secretário geral do PS? Desculpa, o que eu me lembro do sr. Seguro é de andar a distribuir preservativos pelas praias”, afirmou em 2011.

 

O senhor Silva

 

Alberto João Jardim aproximou-se recentemente de Cavaco Silva, tendo-o apoiado na segunda candidatura a Belém, em 2011. Mas nem sempre foi assim. Em 2005, por exemplo, defendeu a sua expulsão do partido, após uma notícia do Público em que se dizia que Cavaco Silva apostava numa maioria absoluta do PS (e que Cavaco viria depois a desmentir). “O comportamento do senhor Silva é causa de expulsão [do PSD], espero que de uma vez por todas o partido deixe de ser politicamente correcto e limpe o partido”, pediu Jardim.

 

Também António Guterres, o candidato presidencial desejado pelo PS, recebeu mimos madeirenses, e não estamos a falar de poncha nem de bolo de mel. “Caloteiro” ou “mula da cooperativa” foram alguns dos adjectivos de Jardim.

 

São, aliás, inesquecíveis as festas de Verão do PSD Madeira, na Herdade do Chão da Lagoa, nas quais Jardim se passeia entre as bancas de todas as freguesias madeirenses, de chapéu de palha e microfone colado à boca, e a beber poncha ou não fosse uma das principais festas na Madeira. O executivo madeirense providencia, aliás, transporte a todos quantos queiram participar nesta celebração.

 

“Estão chineses aqui? É mesmo bom para eles ouvirem”

 

Jardim também tem tomado posições de política económica. Por exemplo, defendeu a criação de massa monetária (como já demos aqui conta): “sem haver massa monetária em circulação – já estou farto de dizer isto – o mercado entra em recessão”.

 

Também tomou posições quanto a imigração, em 2005. E os chineses até o ouviram em primeira mão. “Portugal já está sujeito à concorrência de países de fora da Europa. Os chineses estão a entrar por aí adentro, os indianos a entrar por aí adentro e os países de Leste a fazer concorrência a Portugal. E minhas senhoras e meus senhores… [Alguém chama a atenção de Jardim] Está a fazer-me sinal porquê? Estão chineses aqui, é? É mesmo bom para eles ouvirem”.

 

Para terminar um longo post, mas só poderia ser assim (afinal foram quase 37 anos de liderança!), fica um bónus, uma escolha de dez momentos de Alberto João Jardim em imagens, que incluem algumas das tiradas já aqui destacadas.

 

 

 

 

 

Bruno Simões

Bruno Simões

Bruno Simões nasceu 1988 e está no Negócios desde Novembro de 2009. Escreve regularmente sobre política, poder local e questões de política internacional. Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, deu os primeiros passos na profissão no jornal académico "ComUM".
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