Stark lembra a Portugal: vocês é que pediram ajuda!

19/04/2011
Colocado por: Rui Peres Jorge

 

Fonte: Jerome Favre/Bloomberg

 

Em pleno processo negociação de um pacote de resgate, Jurgen Stark falou aos portugueses numa oportuna entrevista concedida a Sérgio Aníbal no Público. O que se lê deve deixar Lisboa em sobressalto: Stark não mostra qualquer sinal de aceitação dos argumentos e receios que se ouvem no Sul da Europa (e não só) de que os planos de austeridade podem ser exagerados (especialmente depois do exemplo grego), de que o problema também foi criado pelos países do Norte da Europa, ou de uma reestruturação da dívida poderá ser desejável. “Esta é a única saída e é, reconheço, dolorosa”, sintetiza.

 

Algumas citações da entrevista:

 

Ninguém força os países a nada. O que agora está a ser discutido no caso de Portugal é o resultado de um pedido das autoridades portuguesas. É do próprio interesse dos países reorganizar por completo as suas economias porque não o fizeram durante anos

 

Qual é a alternativa? Portugal já tem, neste momento, um elevado prémio de risco quando tenta recorrer ao mercado. Portanto, existe a ameaça de, sem reformas, sem consolidação orçamental e sem apoio da comunidade europeia e internacional, Portugal deixar de conseguir aceder aos mercados de capitais. Então, qual é a alternativa? Esta é a única saída e é, reconheço, dolorosa

 

A discussão sobre a reestruturação da dívida é baseada no pressuposto fundamentalmente errado de que o país A ou país B estão insolventes. Não é este o cado de maneira nenhuma. Os programas que estão a ser postos em prática estão baseados em estimativas muito claras de sustentabilidade da dívida.

 

A reestruturação da dívida é extremamente penalizadora para os próprios países. Se eles considerassem essa possibilidade, teriam de pagar, no futuro, um risco de prémio ainda maior. Haveria também um impacto no sector bancário do país, que é detentor de uma parte significativa da dívida pública emitida. A reestruturação cria muitos problemas, com custos para o próprio país e, claro, para outros.

 

Se fizerem uma reestruturação, passados dois anos batem outra vez contra a parede

 

Essas [as lições com a crise da dívida soberna] têm que ser retiradas pelos Governos. Eles têm de passar a ouvir com mais atenção os alertas que lhes são feitos

 

É necessário enfrentar as deficiências estruturais, os desequilíbrios crescentes, os elevados défices externos, a explosão dos custos unitário de trabalho

 

Quando se foge do rumo certo, é-se penalizado pelo mercado. È assim que os mercados funcionam e nós estamos numa economia de mercado, que é a melhor forma de coordenar a procura e oferta

 

Não podemos fazer mais do que fazemos para ajudar os bancos. Há uma melhoria global do mercado interbancário na zona euro, mas reconheço, não em todas as regiões. O que é preciso é que os bancos façam um ajustamento estrutural pra que não dependem demasiado tempo das operações de refinanciamento do BCE

 

Por que é que os bancos não confiam uns nos outros em algumas regiões da zona euro? Porque precisam de ser mais transparentes, de proceder a uma “desalavancagem” das suas poisções e, se necessário, de se recapitalizar

 

 

A opinião de Jurgen Stark é neste momento uma das mais importantes para Portugal. O economista-chefe do BCE e membro do Conselho Executivo é a voz alemã dentro do BCE e o homem que coordena as equipas de traçam o rumo da políica monetária da autoridade monetária.

 

Isto quer dizer que quando Stark diz que a taxa de juro deve subir, é preciso muitos bons argumentos para que assim não aconteça. E quando Stark diz que não há razões para continuar a comprar obrigações do Tesouro, é preciso muita pressão política para que o BCE faça o contrário. E quando Stark diz que não há outra saída…

Rui Peres Jorge