Tropeção inesperado no PIB aconselha cautela

15/05/2014
Colocado por: Rui Peres Jorge

O PIB contraiu 0,7% face ao final de 2013, tropeçando no arranque do ano. Os economistas da Universidade Católica falam de dados “inesperadamente desfavoráveis”, mas mantêm previsão de recuperação em 2014, embora o façam com mais cautela. Filipe Garcia, da IMF, avisa para riscos de maior volatilidade na economia. E José Miguel Moreira, do Montepio, diz que o banco mantém previsão de crescimento de 1,2%, mas com “riscos descendentes”.

 

Nota do editor: No “Reacção dos Economistas” pode ler, sem edição do Negócios, a análise aos principais indicadores económicos pelos gabinetes de estudos do Montepio, Millennium bcp, BPI, NECEP (Universidade Católica) e IMF, isto sem prejuízo de outras contribuições menos regulares. Esta é parte da “matéria-prima” com que o Negócios trabalha e que agora fica também ao seu dispor.

 

 

Núcleo de Estudos de Conjuntura sobre a Economia Portuguesa (NECEP) da Universidade Católica

 

1. No 1.º trimestre de 2014, a economia portuguesa contraiu 0.7% face ao trimestre anterior, evoluindo  abaixo da sua dinâmica recente e interrompendo uma sucessão de três trimestres com crescimento  positivo em cadeia. Em termos homólogos, o crescimento do PIB manteve-se positivo (1.2%) se bem  que em desaceleração face ao 4.º trimestre de 2013 (1.5%).

 

2. Estes dados, inesperadamente desfavoráveis, não colocam em causa a hipótese de recuperação da  economia portuguesa ao longo de 2014, se bem que a mesma se afigure, agora, menos intensa face ao  anteriormente previsto. O abrandamento das exportações é a informação mais preocupante embora haja efeitos de deflatores, de calendário, de base e mesmo operacionais que permitem tratar este dado como uma oscilação pontual num quadro geral favorável. Acresce que a entrada em vigor das medidas discricionárias previstas no Orçamento do Estado 2014 pode ter tido algum impacto no andamento da economia. Será necessário observar os agregados de despesa de forma mais detalhada para aferir se o crescimento das importações é benigno ou não em função da sua ligação com a recuperação do investimento.

 

3. Os sinais de crescimento são ainda ténues, apesar de se manterem. A existência de sinais contraditórios do lado das exportações, investimento e consumo privado permite antever um ano de 2014 sujeito a oscilações substanciais em termos das variações em cadeia nas contas nacionais trimestrais – também por via das muitas medidas transversais que têm sido tomadas nos últimos anos e que podem ter influenciado o padrão intra-anual da atividade económica.

 

4. Ao nível da Zona Euro, confirmou-se o regresso ao crescimento homólogo positivo (0.9%) que se começou a observar no final de 2013 (0.5%) o que é genericamente favorável para a economia portuguesa

 

Filipe Garcia – Informação Mercados Financeiros

 

1. A contracção em cadeia é o que mais se destaca nesta estimativa rápida.  Segundo o INE, essa contracção teve como origem o abrandamento nas exportações, uma situação que corrobora os indicadores já conhecidos da produção industrial. Quando se depende mais das exportações para crescer, o PIB pode tornar-se mais volátil, porque depende mais da procura externa.

 

2. Os números também foram despontantes em alguns países da Europa, nuns casos devido às questões relacionadas com a energia, noutras em reflexo do desempenho da indústria. Mesmo o crescimento na Alemanha de 0.8% teve sobretudo como origem a procura interna e o inverno pouco rigoroso na Europa e não a indústria ou a procura externa.

 

3. Não fica claro na nota do INE o comportamento da procura interna, incluindo investimento, mas o aumento das importações indicia o continuar do processo de normalização da economia. Quando a procura interna avança, o mesmo acontece com as importações, prejudicando a balança comercial. Continuamos com a opinião que 2014 será um ano de crescimento, mas muito moderado e dependente da procura externa.

 

José Miguel Moreira – Departamento de Estudos do Montepio

 

1. A estimativa preliminar do INE para o Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal no 1ºT2014 apontou para uma queda de 0.7%, um resultado que contraria a mediana das projecções das instituições contactadas pela Bloomberg (+0.1%), bem como as nossas perspectivas menos optimistas, que apontavam, ao contrário do consenso, para a ausência de crescimento. Com efeito, ao contrário do que foi noticiado pela agência Lusa, em resultado de uma incorrecta leitura do nosso Research, a nossa previsão era de uma estagnação do PIB em cadeia (0.0%) e não de um crescimento de 0.6%. Refira-se que a nossa previsão de 0.0% foi utilizada no referido survey da Bloomberg. Essa previsão tinha sido o resultado de um compromisso entre o resultado de diversos tipos de modelos, sendo que os que utilizam dados provenientes da oferta (produção industrial, produção na construção, vendas a retalho e volume de negócios nos serviços) sinalizavam uma contracção.

 

2. O nosso erro de previsão terá estado associado sobretudo ao facto de o contributo das exportações líquidas dever ter sido negativo, quando anteriormente se apontava para um ligeiro contributo positivo. A contribuir para este resultado terá estado também o pior comportamento da Zona Euro, que não duplicou o ritmo de crescimento como era antecipado, mas mantendo antes o mesmo crescimento modesto do trimestre anterior, bem como o facto de a refinaria de Sines da Galp, uma das grandes responsáveis pelo crescimento das exportações, ter estado encerrada para manutenção durante cerca de metade do trimestre. Relativamente à procura interna, deverá ter-se confirmado os comportamentos que temos vindo a avançar, com o esperado crescimento no consumo privado a ser insuficiente para compensar as quedas no consumo público e no investimento. Relativamente à ótica da oferta, a atividade económica no 1ºT2014 terá sido penalizada sobretudo pela construção, mas com a indústria a dever também ter caído, admitindo-se que o setor dos serviços também possa ter contraído, não obstante o acréscimo da atividade retalhista.

 

3. Esta queda do PIB no 1ºT2014 recaiu sobre dados ligeiramente revistos em baixa, com o crescimento do 4ºT2013 a ser revisto em -0.1 p.p., mas anulando apenas pouco mais do que 1/3 dos acréscimos observados no conjunto dos 3 trimestre anteriores: 0.5% no 4ºT2013, 0.3% no 3ºT2013 e 1.1% no 2ºT2013, este o maior desde o 1ºT2007 (+1.5%), tendo sido então o maior crescimento observado entre os países de média e grande dimensão da União Europeia, e até mesmo superior ao dos EUA (+0.6%) e do Japão (+0.9%). A economia regressou assim às quedas, que contudo se espera pontual, depois dos anteriores 3 crescimentos consecutivos terem vindo colocar termo a um período de recessão que durou 10 trimestres, tendo o PIB no 1ºT2013 se situado no nível mais baixo desde o 2ºT2000. Note-se que o PIB português é particularmente volátil, sendo de salientar que a média móvel de 4 trimestres revelou uma subida de 0.3%, em desaceleração (+0.4% no 4ºT2013), mas representando a 2ª consecutiva após 10 contrações consecutivas.

 

4. Em termos homólogos o PIB subiu 1.2%, em desaceleração face ao trimestre anterior (+1.5%, revisto dos anteriores +1.7%), mas apresentando o 2º crescimento consecutivo e os únicos desde o observado no 4ºT2010 (+1.5%). No 1ºT2013 (-4.0%) tinha registado a maior queda desde o 1ºT2009. Segundo o INE, procura externa líquida apresentou um contributo negativo expressivo para a variação homóloga do PIB no 1ºT2014, depois de registar um contributo positivo no trimestre precedente, devido principalmente ao abrandamento das exportações de bens e serviços, tendo as importações de bens e serviços acelerado. Por seu lado, a procura interna apresentou um contributo positivo mais significativo no 1ºT2014, refletindo sobretudo a evolução do investimento.

 

5. Crescimento anual: atendendo a se perspetivar uma reversão, no 2ºT2014, deste mau arranque de ano, continuamos a perspetivar um acréscimo do PIB de 1.2% em 2014, embora com os riscos sobre a nossa previsão a serem agora descendentes, quando anteriormente eram ascendentes.

 

6. Anteriormente já se apontava para que a economia viesse a regressar aos crescimentos consistentes sobretudo a partir do 2ºT2014 – prevíamos, como referido, a ausência de crescimento no 1ºT2014 –, à medida que o impacto das novas medidas se dilua e com a procura externa, nomeadamente a proveniente da Zona Euro (e em especial Espanha) a dever acelerar ao longo do ano (apesar do esforço de diversificação, as exportações ainda estão muito direcionadas para os nossos parceiros europeus). Este regresso ao crescimento deverá ser carimbado com um crescimento bem superior ao anteriormente admitido, esperando-se que a economia consiga mais do que reverter a queda do 1ºT2014, apontando-se para um crescimento mesmo em torno de 1.0% (no 2ºT2013 observou-se também uma forte subida, de 1.1%). Para o total de 2014, mantemos a nossa previsão de um crescimento anual do PIB de 1.2% (-1.4% em 2013) – um valor em linha com o recentemente previsto pelo Governo, no âmbito do Documento de Estratégia Orçamental para 2014-2018, apresentado em 30-abr –, embora com esta previsão a encontrar-se agora rodeada de riscos descendentes (quando anteriormente eram ascendentes), resultado deste mau arranque de ano da economia.

 

Rui Peres Jorge

Rui Peres Jorge

Rui Peres Jorge é jornalista da secção de Economia do Negócios e editor do “massa monetária”. Começou no Semanário Económico em 2002. É mestre em Economia Monetária e Financeira pelo ISEG e pós-graduado em Contabilidade Pública, Finanças Públicas e Gestão Orçamental pelo IDEFE/ISEG, duas das suas áreas de especialização em jornalismo. Conta com cursos de formação em jornalismo económico na Universidade de Columbia em Nova Iorque (Citi Journalistic Excellence Award, 2009) e em jornalismo no Committee of Concerned Journalists em Washington (Bolsa da FLAD, 2010). Ganhou vários prémios na sua área de especialização. Lecciona a cadeira de Jornalismo Económico na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica. Nasceu em 1977 e vive em Lisboa.
Rui Peres Jorge