McSalários: Governo assina protocolo de emprego, enquanto mundo protesta

20/05/2014
Colocado por: Nuno Aguiar

O timing é no mínimo estranho. O Governo assina esta tarde um protocolo de emprego com o McDonald’s, menos de uma semana depois de os trabalhadores da cadeia de restaurantes (e de outras empresas de “fast food”) terem iniciado uma onda de greves e protestos em 150 cidades dos Estados Unidos e outros 33 países por todo o mundo, reivindicando melhores salários.

 

Fast-Food Strikes in 50 U.S. Cities Seeking $15 Per HourTrabalhador do McDonald’s, em protesto em Los Angeles, em Agosto do ano passado. Fonte: Patrick Fallon/Bloomberg

 

No âmbito da apresentação do programa “Dia do Emprego”, o ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, Pedro Mota Soares, vai estar às 15h no McDonald’s na Avenida D. Carlos I, em Lisboa, para assinar um protocolo entre o Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP) e a cadeia de “fast food”.

 

Todos conhecemos a imagem de marca do McDonald’s: pode comer um Big Mac em Lisboa ou em Pequim e ele vai saber-lhe ao mesmo. No entanto, há outro denominador comum à expansão internacional da empresa (para além daquele pickle que toda a gente põe de lado): os salários baixos que paga aos seus trabalhadores, conhecidos como McSalários.

 

A abertura de novos restaurantes noutros países replicou o modelo de remunerações baixas aplicado nos EUA, baseadas no salário mínimo. Um paper de 2012 concluía que, em média, os trabalhadores do McDonald’s da Europa ocidental recebiam 2,23 Big Macs por hora (9,44 dólares) e nos EUA 2,41 Big Macs (7,33 dólares). Na Índia, o valor baixa para 0,35 Big Macs, na Rússia é 1,19.

 

Nesta altura, deve estar a gritar para o monitor do PC: “mas não é só o McDonald’s!”, citando exemplos como o KFC ou a Pizza Hut. O que faz destacar o McDonald’s é a sua escala. O restaurante é a segunda empresa que mais emprega trabalhadores no sector privado em todo o mundo (apenas atrás do Walmart e, no sector público, do exército dos EUA e da China).

 

O McDonald’s é também a empresa com maior fosso entre o salário do seu CEO e do “trabalhador médio”. Um estudo da NerdWallet conclui que a remuneração do presidente executivo do McDonald’s é 1196 vezes superior ao do trabalhador. O mesmo é dizer que, enquanto o tipo que lhe serve os hambúrgueres está a receber 7,73 dólares/hora (valor dos EUA), o CEO recebe 9247 dólares/hora. No Walmart, por exemplo, o múltiplo é 779 (em vez de 1196).

 

O “sistema [de salários baixos é] muito usado, o trabalho é uma área onde pode poupar dinheiro. Eles estão constantemente à procura de formas de ter os mais baixos custos laborais possíveis”, explica ao “Huffington Post” Tony Royle, professor da Bradford School of Management, no Reino Unido e autor do Livro “Working for McDonald’s in Europe and Labour Relations in the Global Fast-Food Industry”.

 

As empresas de fast food estão a enfrentar quebras no mercado interno, olhando para a internacionalização como uma forma de manter o crescimento das vendas. De forma algo irónica, a 15 de Maio, a homogeneidade das cadeias de “fast food” – do sabor das batatas fritas aos McSalários – pode ter começado a virar-se contra elas. Um pouco por todo o mundo, trabalhadores começaram acções de greve ou protestos em frente aos restaurantes onde trabalham. 33 países – e 150 cidades só nos EUA – tiveram focos de protestos. Como seria de esperar, as reinvindicações são semelhantes: salários mais altos, horários mais estáveis e possibilidade de formar um sindicato (quando não existe). Este foi o último passo de um movimento que arrancou em Novembro de 2012, em Nova Iorque, quando 200 trabalhadores de cadeias de fast food entraram em greve, exigindo o aumento salarial para os 15 dólares/hora e o direito de formar um sindicato. Ficou conhecido como a “Luta por 15” (o slogan soa melhor em inglês: “Fight for 15”).

 

O “Guardian” citava quinta-feira o líder de um sindicato sul coreano, Cheong Oksoon: “Onde quer que vá no mundo, os trabalhadores de fast food estão a sofrer com salários baixos, horários longos e emprego instável. Não podem viver um vida normal nas condições que enfrentam actualmente, portanto não têm outra opção que não seja lutar em solidariedade.”

 

O paper referido em cima – da autoria de Orley Ashenfelter –  conclui também que os McSalários costumam estar mais próximos da média da economia em países mais pobres, mas que nos EUA e Europa ocidental tendem a estar sempre nos níveis mais baixos da escala remuneratória. As excepções aos salários baixos costumam ocorrer em países onde os sindicatos têm mais força ou onde o salário mínimo é mais alto (Dinamarca e Austrália são exemplos).

 

Além dos salários baixos, o McDonald’s não tem ajudado a sua imagem nos últimos meses. O Salon noticiou em Novembro que a empresa tinha deixado no seu site (“McResource Line”, entretanto apagado) um conjunto de dicas para os seus trabalhadores que incluíam tiradas incríveis, como: “partir a comida em vários pedaços” para se sentir mais cheio; mastigar uma pastilha ajuda a fazer desaparecer as preocupações; devem ir à igreja; cantar faz diminuir o stress; ou o fantástico reclamar faz aumentar em 15% os níveis de stress.

 

Na semana passada, em reacção aos protestos, o McDonald’s fez um comunicado, em que recusa que a sua política de remunerações seja injusta. A cadeia de fast food argumenta que tem um historial de promoções dentro da empresa e que oferece “benefícios e salários competitivos, tendo por base o mercado local e a posição do trabalhador”. Dá também a entender que a competição com outras empresas está a pressionar os salários. “Esta é uma discussão importante que tem de tomar em conta a natureza altamente competitiva das indústrias que empregam trabalhadores de salário mínimo, bem como consumidores e milhares de pequenas empresas que detêm e gerem a grande maiores dos restaurantes McDonald’s.”

 

Além dos valores para a Europa Ocidental, não existem dados sobre quanto é que os trabalhadores do McDonald’s recebem em média em Portugal (o site da empresa garante que é cumprida a convenção colectiva de trabalho da Restauração). Será normal que, numa economia de salários baixos como a nossa (em comparação com a Alemanha), a diferença dos McSalários face à mediana da economia deverá ser inferior à de um País do centro da Europa. Em Outubro do ano passado, a McDonald’s Portugal despediu 53 trabalhadores, o que deu origem a protestos. O Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Sul diz que o despedimento colectivo é ilegal.

 

Actualização: Durante a apresentação do protocolo, Mota Soares explicou que o sector da restauração pode ser importante para “desempregados com mais de 45 anos”. Citado pela TSF, o director-geral do McDonald’s Portugal, Mário Barbosa, esclareceu que o salário inicial de um trabalhador da empresa é 520 euros (não referiu se eram brutos ou líquidos), “Quando chega a equipa de gestão, começa a ganhar 850 euros e, chegando a gerente, o salário base bruto é de 1500 euros”, acrescentou. Até ao final de 2016, o McDonald’s espera criar 600 postos de trabalho.

 

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar, nasceu em 1987 e licenciou-se em jornalismo pela Universidade Nova. Começou a fazer jornalismo em 2009 no jornal i e em 2011 foi contratado pelo Dinheiro Vivo onde trabalhou até integrar a equipa do Negócios em Setembro de 2012. Em 2015 publicou o livro "Os Números da Nossa Vida". Escreve regularmente sobre temas macroeconómicos.
Nuno Aguiar