Insólitos nas previsões do Conselho de Finanças, do BdP e do FMI

25/03/2015
Colocado por: Rui Peres Jorge

Começou a época de previsões económicas de 2015 num momento particularmente sensível para Portugal. Na saída da crise, as expectativas são essenciais para aproveitar qualquer bom vento de retoma e as várias instituições sabem disso. Além disso, com a saída da troika e eleições à vista há uma ansiedade adensada sobre as opções de política que aí vêm.

 

Nas últimas semanas, FMI, Banco de Portugal e Conselho de Finanças Públicas avançaram as suas perspectivas: os números que apresentaram reflectem bem as sensibilidades de cada instituição e são, por vezes, contraditórios.

 

 

O Banco de Portugal, por influência do BCE, confia que as suas medidas de estímulo monetário vão puxar pela Europa e, logo, por Portugal – que beneficiará também da queda do petróleo. O FMI, pelo contrário, está muito pessimista quanto ao que aí vem – apesar do empurrão do BCE, do euro baixo e dos preços da energia, e a culpa, defende, é da hesitação nacional na implementação das chamadas reformas estruturais que propõe. E o Conselho de Finanças Públicas, que se estreou nas previsões macroeconómicas, surge como o mais optimista entre todos, mas avisa que se o próximo governo devolver salários e pensões, mesmo com o crescimento elevado, o défice voltará acima de 3%.

 

Previsões de crescimento real do PIB

Previsões

 

 

O gráfico é esclarecedor:

  • O FMI reconhece ventos cíclicos positivos que puxam pela economia em 2015, mas em seis meses ficou especialmente pessimista sobre o futuro e em 2019 vê a economia a crescer abaixo de 1,5%.

 

 

 

A interpretação dos números fica ainda mais difícil quando olhamos para outros indicadores, como mostramos nos gráficos abaixo:

 

O Conselho de Finanças Públicas espera mais crescimento com pouca austeridade, mas vê a dívida pública a descer praticamente ao mesmo ritmo que o FMI.

 

Divida pública em % do PIB

 

dívida

 

E o Banco de Portugal antecipa menos crescimento que o CFP, mas está mais optimista quanto à procura externa (e, segundo as regras do Eurosistema, está obrigado a assumir hipóteses semelhantes para a politica orçamental).

 

Taxa de crescimento dirigida à economia portuguesa

procura

 

Esta confuso? É para estar. E estas ainda são as previsões de equipas económicas de instituições independentes do poder político. Em breve teremos previsões do Governo (no final de Abril com a actualização do Programa de Estabilidade e Crescimento) e do PS (cuja equipa de economistas deverá apresentar um relatório nas próximas semanas).

 

Rui Peres Jorge

Rui Peres Jorge

Rui Peres Jorge é jornalista da secção de Economia do Negócios e editor do “massa monetária”. Começou no Semanário Económico em 2002. É mestre em Economia Monetária e Financeira pelo ISEG e pós-graduado em Contabilidade Pública, Finanças Públicas e Gestão Orçamental pelo IDEFE/ISEG, duas das suas áreas de especialização em jornalismo. Conta com cursos de formação em jornalismo económico na Universidade de Columbia em Nova Iorque (Citi Journalistic Excellence Award, 2009) e em jornalismo no Committee of Concerned Journalists em Washington (Bolsa da FLAD, 2010). Ganhou vários prémios na sua área de especialização. Lecciona a cadeira de Jornalismo Económico na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica. Nasceu em 1977 e vive em Lisboa.
Rui Peres Jorge