Inflação negativa em 5 dos últimos sete meses

13/05/2014
Colocado por: Rui Peres Jorge

A inflação homóloga de Abril foi de -0,1%. Este é um valor mais elevado que os -0,4% de Março, mas é também o terceiro mês consecutivo de queda de preços no País. José Miguel Moreira, do Montepio, explica que a subida de inflação se deveu em grande medida à classe dos transportes, e sublinha que nos últimos sete meses, cinco registaram inflação negativa. Filipe Garcia, da IMF, aponta para uma ligeira subida da inflação no resto do ano. O Montepio mantém a previsão de uma inflação média no ano de 0,3%.

 

Nota do editor: No “Reacção dos Economistas” pode ler, sem edição do Negócios, a análise aos principais indicadores económicos pelos gabinetes de estudos do Montepio, Millennium bcp, BPI, NECEP (Universidade Católica) e IMF, isto sem prejuízo de outras contribuições menos regulares. Esta é parte da “matéria-prima” com que o Negócios trabalha e que agora fica também ao seu dispor.
 

 

Rui Bernardes Serra – Economista-chefe do Montepio

 

1. A inflação, medida pela variação homóloga do IPC, subiu em Abril de -0.4% para -0.1%, revertendo a descida do mês anterior e aliviando de um mínimo desde nov-09 (-0.6%), revelando uma leitura em linha com a aguardada pelo mercado e com aquelas que eram também as nossas expectativas (que fizeram igualmente parte do survey da Bloomberg, com consenso de -0.1%). Tratou-se de um comportamento que tínhamos admitido no mês anterior dever ocorrer, na medida em que a descida da inflação em Março tinha reflectido, em grande parte, um efeito de base negativo relacionado com o facto de a Páscoa em 2013 ter sido em Março.  Esta ligeira subida da inflação surge, contudo, depois de 3 desacelerações consecutivas e de um ciclo de 7 desacelerações em 9 meses, sendo visível uma tendência descendente desde nov-11, com a variável a observar o 3º registo consecutivo em terreno negativo, depois de 2 meses no verde, evidenciando o 5º registo negativo em 7 meses, que foram também as primeiras quedas desde nov-09 (-0.6%).

 

2. Os maiores contributos positivos foram evidenciados pela habitação, água, electricidade, gás e outros combustíveis, com um contributo de 0.19 p.p. e um crescimento de 2.1% e pelas bebidas alcoólicas e tabaco (+0.09 p.p.; +2.4%), ao passo que, entre as contribuições negativas, a classe dos produtos alimentares e bebidas não alcoólicas passou a destacar-se (-0.19 p.p.), associada a uma queda de 1.0%, seguida da classe de vestuário e calçado (-0.12 p.p.), com uma descida de 1.8%. Mas a aceleração da inflação em Abril reflectiu essencialmente o comportamento da classe dos transportes, que viu o contributo desagravar-se em 0.48 p.p., passando a evidenciar um contributo positivo (de +0.04 p.p.). Com efeito, a variação homóloga dos preços nos transportes passou de uma queda de -3.0% em Março para um acréscimo de 0.3%, com este comportamento a resultar, em grande medida, da existência do já referido efeito de calendário ligado ao feriado móvel da Páscoa, que este ano ocorreu no mês de abril, enquanto em 2013 incidiu no mês de março. A taxa de variação homóloga do IPC core foi de 0.1%, superior em 0.3 p.p. à registada no mês anterior, permanecendo pelo 3º mês consecutivo num nível superior à do IPC geral, depois de 2 meses a apresentar um valor idêntico, estando já pela 6ª vez nos últimos 8 meses num nível superior ao IPC geral.

 

3. Em termos anuais, recorde-se que o IPC registou uma taxa de variação média de 0.3% em 2013, em forte desaceleração (+2.8% em 2012). Estes últimos dados sobre a inflação têm continuado a confirmar as nossas perspectivas, de que as anteriores pressões sobre os preços advinham essencialmente das commodities (em concreto da energia) ou de alterações fiscais e subidas dos preços regulados, assumindo um carácter largamente temporário. A dissipação desses efeitos temporários ao longo de 2013, em conjugação com uma descida do preço médio anual do petróleo, um crescimento marginal dos preços de importação de bens não energéticos e a manutenção de uma forte moderação salarial traduziram-se numa redução da inflação (medida pela variação homóloga do IHPC) em 2013, de 2.8% para 0.4%, continuando-se a apontar para uma inflação em torno dos 0.3% para 2014.

Filipe Garcia – IMF

 

1. [Registou-se uma] subida mensal dos preços em abril, perfeitamente em linha com o comportamento médio registado no mesmo mês dos últimos anos.

2. Tal como esperávamos, a inflação média estabilizou em Abril e a homóloga iniciou mesmo uma subida ligeira. Esperamos que possam continuar a subir ligeiramente ao longo do ano.

3. Não há, para já, alterações importantes em termos de contexto geral de preços, nomeadamente na procura interna. Nota-se uma evolução positiva nos preços na classe de transportes, que pode estar associado a um efeito de calendário, como o próprio INE sublinha.

Rui Peres Jorge

Rui Peres Jorge

Rui Peres Jorge é jornalista da secção de Economia do Negócios e editor do “massa monetária”. Começou no Semanário Económico em 2002. É mestre em Economia Monetária e Financeira pelo ISEG e pós-graduado em Contabilidade Pública, Finanças Públicas e Gestão Orçamental pelo IDEFE/ISEG, duas das suas áreas de especialização em jornalismo. Conta com cursos de formação em jornalismo económico na Universidade de Columbia em Nova Iorque (Citi Journalistic Excellence Award, 2009) e em jornalismo no Committee of Concerned Journalists em Washington (Bolsa da FLAD, 2010). Ganhou vários prémios na sua área de especialização. Lecciona a cadeira de Jornalismo Económico na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica. Nasceu em 1977 e vive em Lisboa.
Rui Peres Jorge