Couves, peixe e alheiras a caminho da Secretaria-geral da Saúde

19/05/2014
Colocado por: Marlene Carrico

A Secretaria-geral do Ministério da Saúde arrisca-se a passar a ter de gerir uma espécie de “banco alimentar”, caso avance a proposta de despacho do Ministério da Saúde para um “Código de Ética para a Saúde”. Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde poderão ter de vir a entregar todas as ofertas que recebem.

 

 

O Ministério da Saúde quer que os profissionais de saúde passem a entregar à Secretaria-Geral todos os presentes que receberem no âmbito do desempenho da sua profissão. Estes bens serão, de seguida, entregues a instituições com fins de carácter social.

 

A proposta conhecida no final desta semana foi recebida com perplexidade por parte, por exemplo, dos médicos. Jorge Roque da Cunha, do Sindicato Independente dos Médicos, está “curioso” para saber “como vai ser montada a logística da recepção, envio, transporte e armazenamento de ofertas na Secretaria-Geral do Ministério da Saúde, nomeadamente as vivas e as perecíveis”. Sim, porque, segundo o médico, a maioria das ofertas que chegam aos consultórios por parte de utentes são comida. “Costumo receber couves e limões e tenho colegas a trabalhar em Peniche que por vezes recebem peixe!”, relatou o dirigente sindical ao Massa Monetária.

“Costumo receber couves e limões e tenho colegas a trabalhar em Peniche que por vezes recebem peixe!” – Jorge Roque da Cunha, Sindicato Independente dos Médicos

Outro médico, que não quis ser identificado, conta que há uns tempos recebeu “cinco alheiras congeladas”. “Passarei a ter de entregá-las à secretaria-geral?”, questionou-se, continuando em tom irónico: “Os laboratórios dão coisas valiosas, ainda hoje recebi duas canetas de plástico e um pacote de ‘tissues’ [lenços de papel]”.

 

Jorge Roque da Cunha considera que a avançar, esta medida terá de ter limites como entregar apenas ofertas com valor superior a 50 euros, por exemplo.

 

Também o Conselho Regional da Ordem dos Médicos expôs a sua posição acerca desta matéria. “Combater a corrupção e os conflitos de interesse e defender os direitos dos doentes não passa por montar um sistema nacional de recolha de livros, vinhos, esferográficas, presuntos, galinhas, chocolates, ovos, tomates, batatas, couves, chouriços, azeite, azeitonas, cerejas, … Ridículo, patético e esclarecedor! De resto, as ofertas promocionais e os conflitos de interesse já estão devidamente regulamentados”, lê-se no comunicado.

 

No caso dos médicos, estes já são obrigados actualmente a declarar, em nome da transparência, todos os subsídios, patrocínios e outros bens que recebem por parte da indústria farmacêutica e associações de doentes, com valor superior a 25 euros.

Marlene Carrico

Marlene Carrico

Marlene Carriço é jornalista do Jornal de Negócios desde Junho de 2009. Acompanha a área da Saúde desde Janeiro de 2010. Iniciou o seu percurso jornalístico como estagiária na SIC, em 2008, e passou pela secção de economia do jornal Público também como estagiária. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Nasceu em 1987;
Marlene Carrico


3 comentários em “Couves, peixe e alheiras a caminho da Secretaria-geral da Saúde

  1. José Pereira diz:

    Este senhor medico do sindicato ,podia e devia ser mais honesto e referir que tb. recebem garrafas de wisk, caixas de vinho do Porto ,Vodka ,além de outras ofertas de mais valor,só para passarem à frente e atropelar a ordem democrática de quem tem os mesmos direitos só não tem com que pagar….
    Chama-se a isto chulice médica …

  2. jrocha diz:

    Mas assim já fico a saber! Quando quiser fazer um agradecimento a um Médico, a um Enfermeiro, a um amigo, etc.etc. por qualquer coisa, que eu ache que devo oferecer; levo-lhe directamente a casa, ou ao Parque de estacionamento quando ele estiver a sair do trabalho. Procurem os que roubam o País aos milhões e deixem em paz os que são reconhecidos pelo seu digno trabalho, e vão mas é, trabalhar tambem, para o bem do País.

  3. Joaquim diz:

    Com o devido respeito pelos médicos que se recusam a receber ofertas e pelos honestos, os restantes são funcionários públicos ,estão cheios de vícios e deveriam levar processos disciplinares com mão pesada. É obvio que o meu comentário não passa de mais uma pedrada no charco.

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