A época passada, depois de ter conquistado o título de forma convincente na temporada 2009/10, Jorge Jesus prometeu que o Benfica iria atacar a Liga dos Campeões. Como tantas vezes lhe acontece, perdeu-se no discurso, mediu mal as palavras e, no final, apesar de gostar de dizer que tem queda para as profecias, acabou envergonhado. Foi pouco cuidadoso ou, em alternativa, não fazia ideia do poderio das equipas que iria encontrar na mais importante prova de clubes do Velho Continente. Terceira hipótese: por alguma razão pensava ter uma “super-equipa”.

Embora já muitos se tenham esquecido, o ano transacto, por esta altura, as águias andavam a fazer um ror de contas e, pelo meio, a “pedir” a ajuda de terceiros para atingir não os oitavos-de-final da “Champions”, mas sim a entrada nos 16/avos da Liga Europa, algo que ocorreu, é verdade, mas com muita sorte à mistura.

Num grupo teoricamente acessível, na temporada anterior, o Benfica somou por derrotas as três partidas realizadas longe da Luz. Pior: os jogadores que pareciam, de entrada, oferecer tantas garantias ao técnico não lograram marcar um único golo nos 270 minutos realizados na condição de visitante. Hapoel Telavive (3-0), Lyon (2-0) e Schalke 04 (2-0), mesmo sem apresentarem um futebol de dimensão superior, vulgarizaram as águias.

Esta época, contudo, as coisas foram diferentes. E a principal alteração aconteceu com Jorge Jesus. O treinador, antes da bola começar a rolar, fez questão de cumprir as instruções do presidente Luís Filipe Vieira. Foi comedido na hora de estabelecer metas, não se colocou em bicos dos pés. Fê-lo de forma tão certinha que, recorde-se, até exagerou quando, na pré-eliminatória, foi incapaz de dizer que o Benfica era favorito diante de um conjunto (Trabzonsport) que, na altura, nem sabia quando (e se) o campeonato turco iria arrancar.

Com os pés bem assentes no chão, mas com a lição bem estudada, o Benfica fechou em Manchester os três embates enquanto forasteiro no Grupo C. Totalizou 7 pontos e, com um pouco mais de “estrelinha”, até podia ter somado 9. Realizou prestações brilhantes, no que à qualidade futebolística diz respeito? Não, mas a verdade é que soube jogar com cabeça e, principalmente, com coração. O expoente máximo dessa metamorfose aconteceu em Old Trafford, não só pelo valor da equipa de Alex Ferguson, mas pelo facto da equipa ter sido obrigada a reagir à reviravolta inglesa e num momento em que tinha perdido Luisão, não só o capitão, mas o “pronto socorro” da defesa.

O Benfica não é, de maneira alguma, a equipa mais forte da Europa. Mas, como se viu em Manchester, não é por acaso que ainda não sabe o que é perder esta temporada. Quem está 21 embates seguidos sem ser derrotado a abrir uma época (algo só igualado pelo Barcelona entre os principais campeonatos europeus) tem de ter valor. E saber que os discursos “de boca cheia” não costumam ajudar nada. Sejam na Luz ou noutro qualquer local…